{"id":3598,"date":"2023-03-12T11:45:19","date_gmt":"2023-03-12T14:45:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/?p=3598"},"modified":"2023-03-12T11:45:19","modified_gmt":"2023-03-12T14:45:19","slug":"mulheres-de-diferentes-continentes-relatam-realidade-da-imigracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/2023\/03\/12\/mulheres-de-diferentes-continentes-relatam-realidade-da-imigracao\/","title":{"rendered":"Mulheres de diferentes continentes relatam realidade da imigra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/img_3959.jpg\" width=\"600\" height=\"359\" \/><\/p>\n<p>Em busca de seguran\u00e7a, melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e prote\u00e7\u00e3o social, mulheres imigrantes sa\u00edram de seus pa\u00edses e vieram para o Brasil para encontrar abrigo e ref\u00fagio.<!--more--> De acordo com\u00a0<a href=\"https:\/\/portaldeimigracao.mj.gov.br\/images\/Obmigra_2020\/OBMIGRA_2023\/Informativos_Mensais\/relatorio_janeiro23_1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">informativo mensal de janeiro de 2023<\/a>, elaborado pelo Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es Internacionais (OBMigra), desde janeiro de 2021 a emiss\u00e3o de vistos pelos postos consulares brasileiros apresenta tend\u00eancia de aumento, partindo de 3,8 mil vistos para 9,2 mil em janeiro de 2023.<img src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1515269&amp;o=node\" \/><img src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1515269&amp;o=node\" \/><\/p>\n<p>No m\u00eas em que \u00e9 celebrado o\u00a0Dia Internacional da Mulher (8 de mar\u00e7o), a reportagem da\u00a0<strong>Ag\u00eancia Brasil\u00a0<\/strong>conversou com tr\u00eas imigrantes que vivem em S\u00e3o Paulo e que vieram de diferentes regi\u00f5es do mundo: do Afeganist\u00e3o, na \u00c1sia;\u00a0da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, na \u00c1frica; e da Bol\u00edvia, na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>S\u00e3o imigrantes e refugiadas em diferentes fases da vida, que viram no Brasil um lugar para morar e aqui t\u00eam constru\u00eddo suas hist\u00f3rias. Elas contaram suas jornadas e falaram sobre suas expectativas.<\/p>\n<p>A cozinheira Raihana Ibrahimi, de 49 anos, nasceu no Afeganist\u00e3o, mas vive h\u00e1 cinco anos em S\u00e3o Paulo. Ela tem um restaurante de cozinha afeg\u00e3 com o marido no bairro da Liberdade. Ambos s\u00e3o da etnia hazara, minoria que \u00e9 historicamente perseguida pelo Talib\u00e3, que retomou o poder no pa\u00eds no ano passado, com a retirada das tropas americanas ap\u00f3s 20 anos de guerra.<\/p>\n<p>Primeiro veio o marido h\u00e1 oito anos, depois ela e, mais recentemente, chegou o filho de 17 anos. Ainda vive no pa\u00eds um filho de 13 anos, que mora com a av\u00f3.<\/p>\n<p>A cozinheira conta que eles vieram para o Brasil pelo mesmo motivo de milhares de \u00a0afeg\u00e3os que migraram para o pa\u00eds nos \u00faltimos anos: fugir da opress\u00e3o do Talib\u00e3, \u00a0grupo fundamentalista sunita que imp\u00f5e no pa\u00eds um governo violento, autorit\u00e1rio e ultraconservador.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"post-item-wrap\">\n<p>Longe dos sofrimentos impostos pelo Talib\u00e3, ela diz que o Brasil \u201c\u00e9 muito bom para as mulheres, \u2018deixa\u2019 ir para a escola, \u2018deixa\u2019 tudo\u201d. O Brasil \u00e9 bom\u201d, afirma Raihana, que ainda est\u00e1 aprendendo o portugu\u00eas.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cL\u00e1 agora n\u00e3o tem escolas para as meninas, tudo fechado, a faculdade tamb\u00e9m, n\u00e3o tem nada para as mulheres. A mulher tem que andar toda de burka, toda fechada, n\u00e3o se pode ver m\u00e3o, perna, nada\u201d, lamenta.<\/p><\/blockquote>\n<p>O sonho agora \u00e9 que toda a fam\u00edlia dela venha para o Brasil. Ela est\u00e1 com visto de imigrante reconhecido como refugiado. O marido j\u00e1 conseguiu a naturaliza\u00e7\u00e3o brasileira. Os outros familiares, no entanto, ainda n\u00e3o conseguiram os vistos. \u201cTudo parado na embaixada\u201d, ela afirma.<\/p>\n<p>Raihana conta que no Afeganist\u00e3o n\u00e3o tem Dia das Mulheres. \u201cTodo mundo sabe que o 8 de mar\u00e7o \u00e9 para as mulheres, mas, no Afeganist\u00e3o, os maridos n\u00e3o deixam que as mulheres saibam e as mulheres que lutaram pela nossa liberdade, a maioria delas est\u00e1\u00a0morta\u00a0ou escapou para algum lugar.\u201d<\/p>\n<p>Perguntada sobre o que ela deseja para as mulheres afeg\u00e3s, Raihana tenta responder, procura as palavras em portugu\u00eas, mas elas n\u00e3o v\u00eam, apenas o choro. Passada a emo\u00e7\u00e3o, ela externa seu desejo para as suas conterr\u00e2neas: \u201cQuero tudo para as mulheres, \u2018deixa\u2019 trabalhar\u2019, \u2018deixa\u2019 faculdade, liberdade para todas as mulheres e as meninas! Liberdade na rua, liberdade na faculdade e para as estudantes.\u201d<\/p>\n<h2>Persegui\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Raihana \u00e9 da etnia hazara, uma minoria de origem turca e mongol que reside principalmente na regi\u00e3o central do Afeganist\u00e3o. \u201cO talib\u00e3 n\u00e3o quer os hazaras porque a nova gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 estudando\u201d, destaca a imigrante. \u201cSomos perseguidos pelos [membros] da etnia pashtun.\u201d<\/p>\n<p>O membros da etnia pashtun s\u00e3o do grupo Talib\u00e3. Eles perseguem as meninas e as mulheres, principalmente as solteiras. \u201cSe a menina n\u00e3o est\u00e1 casada, o Talib\u00e3 questiona e violenta a menina, para n\u00f3s, as hazaras \u00e9 muito ruim\u201d, diz Raihana. \u201c[Elas] se escondem, n\u00e3o saem de casa para n\u00e3o serem levadas [pelo Talib\u00e3].\u201d<\/p>\n<p>Ela lamenta ainda o que o conflito no pa\u00eds faz com a inf\u00e2ncia. \u201cCrian\u00e7a n\u00e3o sabe [do conflito], agora n\u00e3o tem escola, n\u00e3o tem nada, n\u00e3o tem comida, nem para mulheres, nem para homens. Queremos o Afeganist\u00e3o para todas as mulheres, os homens, queremos liberdade!\u201d<\/p>\n<h2>Bol\u00edvia<\/h2>\n<p>A boliviana Lizbeth Aide Chacolla Yujra est\u00e1 h\u00e1 15 anos no Brasil. Ela veio ainda \u00a0crian\u00e7a, aos 8 anos de idade, com os pais que desejavam sair do pa\u00eds por conta do governo\u00a0Evo Morales. \u201cMeus pais vendiam sapatos dos Estados Unidos, quando o Evo Morales entrou no governo, ele proibiu qualquer tipo de produtos dos EUA, para incentivar o com\u00e9rcio boliviano\u201d. Com isso, os pais de Lizbeth, que j\u00e1 tinham parentes morando no Brasil, vieram para o pa\u00eds e conseguiram trabalho como costureiros.<\/p>\n<p>Ela e a irm\u00e3 aprenderam portugu\u00eas na escola, cresceram e se formaram no Brasil. A irm\u00e3 \u00e9 designer e ela estudou gastronomia.\u00a0Ela conta que j\u00e1 voltou tr\u00eas vezes ao pa\u00eds, a passeio. \u201cA \u00faltima vez foi quando eu tinha 18 anos, porque at\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o tinha visto tudo o que tinha l\u00e1, n\u00e3o conhecia meu pa\u00eds, queria me aventurar e conhecer a cultura da Bol\u00edvia\u201d. Lizbeth n\u00e3o \u00e9 naturalizada brasileira, mas tem permiss\u00e3o para morar no Brasil e est\u00e1 legalizada.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block zoom-on-hover-sm shadow-hover w-100\"><img class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Arquivo pessoal\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/HtN85sziND06lf7kKPcJ2dr0fQc=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/lizbeth_aide_chacolla_yujra.jpeg?itok=9UV9tLjG\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP) - ESPECIAL MULHERES IMIGRANTES - Lizbeth Aide Chacolla Yujra. Foto: Arquivo Pessoal\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Lizbeth Aide Chacolla Yujra vende comidas t\u00edpicas da Bol\u00edvia\u00a0&#8211;\u00a0<strong>Arquivo pessoal<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Atualmente com 23 anos, Lizbeth \u00e9 empreendedora e dona da Munnay Panader\u00eda, que faz entregas por\u00a0<em>delivery\u00a0<\/em>e sob encomenda por meio das redes sociais, al\u00e9m de participar de eventos culturais e latinos. A\u00a0<em>panader\u00eda<\/em>, padaria em espanhol, produz comidas t\u00edpicas do pa\u00eds, como a empanada\u00a0<em>pucacapa<\/em>, a\u00a0<em>wistupiku<\/em>, a\u00a0<em>salte\u00f1a<\/em>\u00a0entre outros.<\/p>\n<h2>Inseguran\u00e7a<\/h2>\n<blockquote><p>\u201cNo geral, ser mulher traz muita inseguran\u00e7a\u201d, diz Lizbeth, que cresceu e se tornou adulta no Brasil. \u201cMas, quando eu ainda n\u00e3o sabia falar portugu\u00eas e n\u00e3o entendia, e as pessoas faziam \u2018gracinha\u2019, era ruim, e eu pegava \u00f4nibus sozinha, eu tinha medo, sabia de muitos casos de meninas sendo assediadas\u201d, relembra.<\/p><\/blockquote>\n<p>Hoje,\u00a0ela pensa que as mulheres t\u00eam que dar for\u00e7a umas \u00e0s outras, pois muitas situa\u00e7\u00f5es ainda passam pelo machismo. \u201cEu sou empreendedora e, quando eu chego a\u00a0lugares para fazer algum tipo de neg\u00f3cio, perguntam se eu sou maior de idade, e se eu tenho um marido, como se precisasse de um marido para me respaldar. Quando eu percebo algo n\u00e3o dou muitos ouvidos, mas quando eu era crian\u00e7a eu chorava. Hoje eu lido [de forma] diferente, eu n\u00e3o sou o que eles falam, \u00e9 o que me d\u00e1 mais for\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Apesar dos obst\u00e1culos, Lizbeth afirma que o Brasil foi acolhedor para ela. \u201cA parte ruim foi minoria para mim, a parte boa \u00e9 que me faz ficar aqui, porque se tivesse muito ruim eu teria ido embora. Aqui eu tenho amigos, que sempre me apoiam e eu agrade\u00e7o muito a eles.\u201d<\/p>\n<h2>Racismo e xenofobia<\/h2>\n<p>\u201cAs migra\u00e7\u00f5es \u2013 especialmente as migra\u00e7\u00f5es femininas \u2013 s\u00e3o atravessadas pelo racismo e pela xenofobia\u201d, explica a docente de\u00a0bacharelado em pol\u00edticas p\u00fablicas e de\u00a0bacharelado em ci\u00eancias e humanidades da Universidade Federal do ABC, Roberta Peres.<\/p>\n<p>\u201cAs migra\u00e7\u00f5es de mulheres europeias, brancas, s\u00e3o percebidas de forma muito diferente das migra\u00e7\u00f5es de mulheres haitianas, por exemplo. Ao mesmo tempo, as mulheres em situa\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio vindas da S\u00edria tamb\u00e9m s\u00e3o percebidas de forma diferente das mulheres refugiadas da Venezuela.&#8221;<\/p>\n<p>A professora explica que\u00a0a forma como as mulheres s\u00e3o recebidas no Brasil tamb\u00e9m tem a ver com quest\u00f5es de ra\u00e7a, etnia e origem. \u201cTemos uma lei de migra\u00e7\u00e3o que trouxe avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o ao extinto Estatuto do Estrangeiro, mas ainda precisamos lutar por sua implementa\u00e7\u00e3o, de fato, justamente para proteger as pessoas mais vulner\u00e1veis em suas trajet\u00f3rias migrat\u00f3rias, mais suscet\u00edveis \u00e0s vulnerabilidades que s\u00e3o as mulheres,\u00a0especialmente gestantes\u00a0e crian\u00e7as. E tamb\u00e9m para que as mulheres \u2013 e todos os migrantes \u2013 que chegam ao Brasil tenham a prote\u00e7\u00e3o do Estado e acesso a direitos\u201d, defende.<\/p>\n<h2>Congo<\/h2>\n<p>Imigrante do Congo, na \u00c1frica, Hortense Mbuyi\u00a0veio para o Brasil h\u00e1 oito anos. No colo, ela trouxe seu filho do meio, na \u00e9poca com 6 meses de vida. Na terra natal, ela precisou deixar as duas filhas mais velhas, que estavam com quatro e dois anos de idade, que ficaram com a av\u00f3, m\u00e3e de Hortense.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block zoom-on-hover-sm shadow-hover w-100\"><img class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/sX9sRGv38bUyXkHGycN_FuBCxsM=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_4036.jpg?itok=rgk8oCnn\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 09\/03\/2023, A advogada e ativista congolesa Hortense Mbuyi, eleita membro titular no Conselho Municipal de Imigrantes, vive como refugiada no Brasil. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">A advogada e ativista congolesa Hortense Mbuyi vive como refugiada no Brasil &#8211;\u00a0<strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Advogada especializada em direito econ\u00f4mico e social e ativista pol\u00edtica, Hortense saiu do pa\u00eds para se proteger. \u201cSa\u00ed do pa\u00eds fugindo de uma persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, porque eu atuava em um partido da oposi\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, o pa\u00eds estava em uma crise pol\u00edtica e uma guerra de invas\u00e3o, e a minha persegui\u00e7\u00e3o ficou tensa quando eu participei de [grupos de] lideran\u00e7as de jovens e juristas que organizaram um ato contra a modifica\u00e7\u00e3o de alguns artigos da Constitui\u00e7\u00e3o [do pa\u00eds].\u201d<\/p>\n<p>Ela lamenta n\u00e3o poder trazer as filhas. \u201cN\u00e3o era a minha previs\u00e3o morar fora do pa\u00eds, naquela \u00e9poca s\u00f3 consegui trazer o beb\u00ea de colo, na minha condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha como entrar em processo para conseguir visto para toda a fam\u00edlia. At\u00e9 hoje a minha fam\u00edlia \u00e9 partida, estou aqui, mas elas continuam l\u00e1 at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p>Dois anos depois que ela veio para o Brasil, o marido conseguiu vir e, aqui, eles tiveram dois filhos. Hortense vive no pa\u00eds com o registro de imigrante refugiada. \u201cN\u00e3o me naturalizei [brasileira], continuo sendo congolesa porque a condi\u00e7\u00e3o do meu pa\u00eds n\u00e3o permite dupla nacionalidade\u201d, explica.<\/p>\n<p>Na falta de oportunidades profissionais, Hortense partiu para o empreendedorismo para sobreviver. \u00c9 idealizadora do Espa\u00e7o Wema, que promove a cultura africana. \u201cAinda n\u00e3o consegui me reintegrar \u00e0 minha profiss\u00e3o. Ent\u00e3o fui empreender com a ideia de um centro cultural, onde fa\u00e7o a promo\u00e7\u00e3o da cultura africana e uso a comida como meio de encontro, com rodas de conversa, atividades e oficinas de culin\u00e1ria t\u00edpicas, onde contamos a hist\u00f3ria dos pratos, como fazer a comida, trabalhamos com a comida afetiva. Usamos a comida como meio de encontro e essa comida tem um precifica\u00e7\u00e3o\u201d, conta, ao falar sobre como faz para se manter economicamente.<\/p>\n<h2>Mulher no Brasil<\/h2>\n<p>Na vis\u00e3o de Hortense, a luta da mulher no Brasil \u00e9\u00a0muito avan\u00e7ada. \u201cPelos seus direitos, pela sua autonomia, essa liberdade que j\u00e1 foi concedida \u00e0 mulher brasileira \u00e9 um avan\u00e7o comparada \u00e0\u00a0mulher no Congo, que ainda est\u00e1 presa pela cultura, pelas realidades cotidianas e as consequ\u00eancias do colonialismo. Ela est\u00e1 presa, sobretudo, a essa viol\u00eancia que est\u00e1 acontecendo no mundo contra a mulher e que influencia ainda esse profundo \u2018des\u00e1gio\u2019 do g\u00eanero.\u201d<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO machismo [no Congo] olha a mulher da cintura para baixo\u201d, ela crava. \u201cPensam que a mulher s\u00f3 presta para fazer filho e ser dona de casa. N\u00e3o pensam que \u00e9 um ser humano que pode desenvolver em outras \u00e1reas, que pode integrar outros dom\u00ednios da sociedade para contribuir na constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Em sua viv\u00eancia no Brasil, a advogada percebeu como \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da mulher brasileira. \u201cA m\u00e3o de obra da mulher tem visibilidade, e h\u00e1 posicionamento da mulher, o que n\u00e3o vejo no Congo, onde a mulher \u00e9 calada ainda, \u00e9 humilhada, ela vivencia seus direitos serem pisados e ningu\u00e9m a defende. E a Constitui\u00e7\u00e3o [do Congo] n\u00e3o tem nada para a prote\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o da mulher como vejo no Brasil\u201d, completa Hortense. \u201cHoje a mulher brasileira carrega uma for\u00e7a no rosto. J\u00e1 a fraqueza, a\u00a0amargura, \u00e9 o que se pode ler na cara de uma mulher congolesa.\u201d<\/p>\n<h2>Mulher no Congo<\/h2>\n<p>\u201cNo Congo, o estupro da mulher est\u00e1 sendo usado como arma de guerra\u201d, lamentou. \u201cA mulher tem o sexo mutilado, ela \u00e9 feita de escrava, vive o abuso sexual e ningu\u00e9m est\u00e1 ali para proteg\u00ea-la.\u201d<\/p>\n<p>Hortense frisa que, em sua terra natal, o machismo continua a manter sua for\u00e7a dentro da cultura.\u00a0\u201cA\u00a0mulher tem que ser casada, ela n\u00e3o tem sua autonomia, e, para casar o homem ainda tem que dar o dote, ou seja, o homem est\u00e1 comprando um bem, como uma casa, um carro, ele tem a mulher como patrim\u00f4nio. Ele n\u00e3o casa para fazer dela uma parceira, uma companhia, tem a mulher como se fosse um patrim\u00f4nio.\u201d<\/p>\n<p>Hortense clama pelas suas conterr\u00e2neas. \u201cDesejo que as mulheres no mundo, que s\u00e3o unidas, possam, por favor, olhar pelo Congo, a mulher no Congo est\u00e1 gritando por socorro e ningu\u00e9m est\u00e1 ali para ouvir. S\u00e3o milh\u00f5es de mortos [no Congo] e ningu\u00e9m fala, a m\u00eddia e o mundo todo est\u00e3o\u00a0calados, h\u00e1 25 anos a mulher est\u00e1 sendo estuprada nessa guerra toda, elas morrem todos os dias. A guerra da Ucr\u00e2nia\u00a0come\u00e7ou ontem, h\u00e1 outras guerras h\u00e1 mais tempo e ningu\u00e9m fala nada.\u201d<\/p>\n<p>A guerra civil na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo j\u00e1 deixou mais de 6 milh\u00f5es de mortos,\u00a0e milhares de mulheres v\u00eam sendo submetidas a estupros. Os conflitos, grupos armados, mil\u00edcias e fac\u00e7\u00f5es\u00a0vem de disputas pelo espa\u00e7o e controle dos minerais congoleses que s\u00e3o contrabandeados para outros pa\u00edses.<\/p>\n<h2>Processo migrat\u00f3rio<\/h2>\n<p>A professora Roberta Peres destaca que, como Hortense, as mulheres s\u00e3o tamb\u00e9m protagonistas de suas trajet\u00f3rias migrat\u00f3rias e tem se distribu\u00eddo em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds, acompanhadas ou n\u00e3o. \u201cMulheres migrantes n\u00e3o s\u00e3o acompanhantes. S\u00e3o agentes de equidade no processo migrat\u00f3rio.\u201d<\/p>\n<p>Roberta Peres ressalta que, no caso brasileiro, h\u00e1 ainda muitos desafios pela frente: \u201cAcessar servi\u00e7os de sa\u00fade, especialmente de sa\u00fade sexual e reprodutiva, ocupar postos de trabalho n\u00e3o precarizados e mal remunerados e perigosos, e que as crian\u00e7as tenham acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, enfim, que consigam acessar o sistema de prote\u00e7\u00e3o social dispon\u00edvel\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Para isso, os desafios s\u00e3o muitos: a quest\u00e3o da l\u00edngua, da identidade, da cultura, do racismo e da viol\u00eancia de g\u00eanero. \u201c\u00c9 preciso compreender que as migra\u00e7\u00f5es internacionais no s\u00e9culo 21 n\u00e3o v\u00e3o cessar. Sua complexidade como processo social ser\u00e1 cada vez maior e mais din\u00e2mica, o que apresenta uma s\u00e9rie de desafios para a gest\u00e3o de pol\u00edticas para migrantes.\u201d<\/p>\n<p>Por isso, o di\u00e1logo com gestores e com os movimentos sociais de migrantes \u00e9 fundamental, defende Roberta. \u201cE as mulheres t\u00eam se mostrado, em diferentes nacionalidades, agentes fundamentais neste di\u00e1logo e na luta por direitos, especialmente naquelas em situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade\u201d, destaca.<\/p>\n<p>A congolesa Hortense Mbuyi \u00e9 atualmente presidente do Conselho Municipal de Imigrantes (CMI) da cidade de S\u00e3o Paulo, \u00f3rg\u00e3o consultivo e parit\u00e1rio que tem como objetivo participar da formula\u00e7\u00e3o, implementa\u00e7\u00e3o, monitoramento e avalia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas voltadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o imigrante da capital paulista.<\/p>\n<h2>Acesso<\/h2>\n<p>A professora pontua que ser mulher migrante no Brasil \u00e9 lidar com o racismo, a xenofobia, as dificuldades no acesso ao sistema de prote\u00e7\u00e3o social. \u201c\u00c9 estar numa sociedade que vem selecionando, ao longo da hist\u00f3ria, que migra\u00e7\u00e3o ir\u00e1 celebrar e refor\u00e7ar o car\u00e1ter de &#8216;pa\u00eds receptor de migrantes&#8217;. Essa &#8216;hospitalidade&#8217;\u00a0\u00e9 reservada apenas a alguns grupos de migrantes \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o a maioria das pessoas em tr\u00e2nsito no mundo\u201d, observou.<\/p>\n<p>\u201cSer mulher migrante no Brasil \u2013 haitiana, venezuelana, s\u00edria, congolesa, coreana, boliviana, peruana, afeg\u00e3, bengali, filipina, chinesa, nordestina, nortista \u2013 \u00e9 lutar pela garantia de direitos b\u00e1sicos, incluindo aqueles relacionados \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cultura\u201d, finaliza a professora.<\/p>\n<\/div>\n<p class=\"alt-font font-italic my-2 small text-info\">Edi\u00e7\u00e3o: Juliana Andrade<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em busca de seguran\u00e7a, melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e prote\u00e7\u00e3o social, mulheres imigrantes sa\u00edram de seus pa\u00edses e vieram para o Brasil para encontrar abrigo e ref\u00fagio.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3599,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[2],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3598"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3598"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3598\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3600,"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3598\/revisions\/3600"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3599"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.correiodascidades.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}