O Mais Belo dos Belos: saída do Ilê Aiyê leva multidão para a Ladeira do Curuzu


Quando ele passa, todos param para admirar. Antes mesmo de sair, uma multidão aguarda o momento de apreciar sua beleza. É assim há 52 anos: na noite em que o Ilê Aiyê sai do terreiro Ilê Axé Jitolú rumo ao Circuito Mãe Hilda, é difícil encontrar um espacinho vazio na ladeira do Curuzu.
Enquanto se preparava, a Deusa do Ébano deste ano, Carol Xavier, era só emoção. O coração batia forte, “no ritmo do Ilê”, como ela mesma descreveu. A mente, porém, estava tranquila para encarar e honrar a responsabilidade da coroa — e representar milhares de meninas e mulheres negras Brasil afora.
“É muito bonito quando a gente fala sobre representatividade, porque é de fato trazer a potência para essas outras crianças e mulheres. Elas são uma potência já na cidade, que já é uma estrutura de Salvador, mas não conseguem se enxergar enquanto potência”, afirmou.
Antes da saída, como pede a tradição de cinco décadas, o bloco fez seu ritual religioso para abrir os caminhos, com a bênção da ialorixá Hildelice Benta, filha da falecida Mãe Hilda Jitolu e atual comandante do terreiro.
Primeiro, uma chuva de milho, pipoca e pó de pemba atingiu as centenas de cabeças que não abriam mão do seu lugar em frente ao local sagrado na Liberdade.
Os tambores dos músicos do Ilê e o cântico para Oxalá e Obaluaê inundavam as ruas, pedindo boas energias e proteção para este Carnaval. Continuando a tradição, pombas brancas que simbolizam a paz foram soltas, dedicadas a Oxalá.
Teve início, assim, o Carnaval do primeiro bloco afro do Brasil. Com o grupo de músicos, a Deusa do Ébano e as princesas escolhidas na 45ª Noite da Beleza Negra posicionados, o Ilê seguiu o cortejo, ladeira acima.
“Fico muito gratificado em ver esse projeto se proliferar pelo Brasil. Hoje você tem blocos afro pelo Brasil quase todo, a revolução do tambor está no mundo”, afirmou Vovô do Ilê, fundador e presidente do bloco.
Após a saída no terreiro Ilê Axé Jitolú, o trio do Ilê Aiyê seguiu para o Plano Inclinado da Liberdade. De lá, os associados fazem uma pausa até se encontrarem novamente no Corredor da Vitória, onde as fantasias formam um mar de cores e tomam conta das ruas no primeiro desfile no circuito oficial, o Circuito Osmar, às 2h de domingo (15), em direção à Praça Castro Alves.
Este ano, o Mais Belo dos Belos desfilou com o tema “Turbantes e Cocares: a história de resistência do povo afro e indígena de Maricá”, com o objetivo de conectar Bahia e Rio de Janeiro a partir da memória, da ancestralidade e da luta de povos que sustentam, geração após geração, as bases da identidade brasileira.
“Os povos originários também são nossos parceiros. Graças a eles os quilombos foram formados, porque eles foram a nossa trilha, eles que nos orientaram, orientaram os nossos ancestrais, onde tinha água, onde tinha frutos. Então, hoje o Ilê Aiyê faz uma ação de reparação desse carnaval homenageando os povos originários”, contou Arany Santana, ex-diretora do Ilê Aiyê, antes da Noite da Beleza Negra.
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