Imóvel afastado no sertão, espécies ameaçadas e informações escondidas: o que se sabe sobre os criminosos que arrancavam barbatanas de tubarão na Bahia Crédito: Polícia Federal/Divulgação

Tubarão-lixa e tubarão-azul. Essas são duas das espécies ameaçadas de extinção que foram inicialmente identificadas em meio a uma carga com mais de 1,58 tonelada de barbatanas de tubarão apreendida na Bahia, no último dia 12. A carga ilegal estava em um imóvel na zona rural de Rodelas, na região do Vale do São Francisco, com o envolvimento de três chineses e quatro brasileiros, incluindo um adolescente.

operação conjunta foi deflagrada pela Polícia Federal (PF), pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), após troca de informações de inteligência entre as instituições. De acordo com as autoridades, o espaço era usado como um ponto para o beneficiamento e armazenamento ilegal de barbatanas de tubarão, atividade proibida pela legislação ambiental brasileira.

Tubarão-lixa e tubarão-azul. Essas são duas das espécies ameaçadas de extinção que foram inicialmente identificadas em meio a uma carga com mais de 1,58 tonelada de barbatanas de tubarão apreendida na Bahia, no último dia 12. por Polícia Federal/Divulgação

Segundo o delegado de Polícia Federal Micael Andrade, responsável pela investigação e lotado na Delegacia da PF em Juazeiro, o município de Rodelas foi escolhido para dificultar as investigações, por se tratar de uma cidade no sertão baiano. O local poderia ser considerado improvável e, na avaliação do delegado, indica a “a alta capacidade desse grupo criminoso”.

Os chineses tinham se fixado em Rodelas, mas moravam originalmente em outros estados, como Paraná e São Paulo. “Os indícios são de que aquele ponto de beneficiamento específico nessa casa em Rodelas estaria sendo utilizado há cerca de cinco meses, mas isso ainda vai ser confirmado a partir da análise dos celulares, das oitivas dos envolvidos e da oitiva da proprietária que alugou para os chineses”, explica Andrade.

Uma vez na casa, os chineses trabalhavam diariamente no beneficiamento das barbatanas, devido à grande quantidade de material que era recebido, tratado e encaminhado. Ainda de acordo com o delegado, eles até evitavam sair do local e limitavam o acesso de outras pessoas. Agora, a investigação vai seguir com a análise do material apreendido, dos celulares e tablet, além de anotações encontradas no local.

Para o delegado Micael Andrade, certamente haverá mais desdobramentos e identificação de mais pessoas envolvidas. “A gente tem plena certeza de que existem (outros núcleos em outras cidades), porque esses tubarões são capturados em algum ponto do litoral brasileiro. Tem um ponto de captura, de armazenamento e de encaminhamento para essa casa em Rodelas. De lá, a gente tem também certeza de que (a carga) vai para outro ponto de escoamento, de saída do território brasileiro”.

Os três chineses continuam presos, uma vez que a prisão em flagrante deles foi convertida em prisão preventiva. Havia uma separação de funções: os brasileiros trabalhavam, por diária, em uma etapa específica do processo de beneficiamento, enquanto os chineses compartilhavam as informações e proibiam os brasileiros de fazerem registros do que acontecia lá ou de comentar com outras pessoas.

“Os brasileiros sequer sabiam como era todo processo de beneficiamento. Iam para a casa com a função de ‘pelar’ as barbatanas e depois iam embora. Os chineses que seguiam com a finalização do beneficiamento”, acrescenta Andrade.

Crueldade

Foi a primeira vez que uma operação do tipo foi deflagrada na Bahia, mas, segundo o Ibama, apreensões semelhantes já tinham sido feitas pelo órgão em estados como Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina e São Paulo. A atuação criminosa em Rodelas, de forma geral, começou há mais tempo: a presença do grupo na cidade é de pelo menos novembro de 2024.

Informações: Correio