Foram oito Enems, mais de 15 vestibulares e dias inteiros estudando em uma casa sem energia elétrica. A trajetória de Matheus Moreira Araújo, 28, hoje estudante de Medicina da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), começou em uma comunidade quilombola em Antônio Cardoso e avançou sustentada por disciplina, fé e propósito. “Eu estudava com o pouco que tinha, mas seguia todos os dias”, lembra ele, nesta entrevista ao A TARDE.
Além de vencer a própria história, Matheus decidiu transformar sua rotina em referência para jovens que enfrentam desafios parecidos. Hoje, reúne cerca de 90 mil seguidores nas redes sociais, onde mostra — sem filtros — a rotina de estudos, o esforço para se manter na universidade e a realidade de quem trabalha e aprende ao mesmo tempo. “Nada acontece do dia para a noite”, afirma.
Na conversa, Matheus reflete sobre a conquista, os desafios para permanecer no curso e a educação como caminho de mudança. Fala também sobre a influência da família, sobre como lida com a visibilidade nas redes e sobre o futuro que deseja construir. Entre cansaço, superação e esperança, ele reafirma a mensagem que orienta sua jornada: trabalho constante — e propósito — fazem toda diferença. Saiba mais na entrevista a seguir.
Na conversa, Matheus reflete sobre a conquista, os desafios para permanecer no curso e a educação como caminho de mudança. Fala também sobre a influência da família, sobre como lida com a visibilidade nas redes e sobre o futuro que deseja construir. Entre cansaço, superação e esperança, ele reafirma a mensagem que orienta sua jornada: trabalho constante — e propósito — fazem toda diferença. Saiba mais na entrevista a seguir.
Apesar de serem analfabetos, eles entendiam que a educação era o melhor caminho para gente. Eles não queriam que a gente replicasse a vida de dificuldade que eles tiveram. Isso me levou a cursar Medicina, meu irmão fazer Psicologia e outro que estuda Sistema de Informações. Meus pais sabiam que o único caminho para o pobre vencer na vida era educação, futebol, ou o talento. Como a gente não jogava futebol e não sabia cantar, então o único caminho era o da educação.
Hoje, você compartilha sua trajetória para inspirar outros jovens que enfrentam desafios parecidos. Por que considera importante levar essa história adiante?
Normalmente a gente procura pessoas semelhantes para mostrar que deu certo. Nós vivemos dentro de bolhas. Para um menino que vive na periferia de Salvador, ou numa comunidade quilombola, você acordar, trabalhar, ter uma moto, aquilo ali é o ápice de vida para ele. Ele não pensa que pode ser um juiz, um delegado, qualquer coisa desse tipo. Você acaba sendo limitado pelo espaço que vive. Quando eu mostro minha rotina no curso de Medicina de uma universidade pública, como ela é trabalhosa, você tem que estudar, trabalhar, é para mostrar que através de muito esforço você pode conquistar qualquer coisa. Nada acontece do dia para noite. A minha rotina, a minha história, acho que pode ajudar outras pessoas a acreditarem nos seus sonhos. Por isso mostro minha rotina, sem filtros. Minha rotina é desse jeito, é trabalhosa. Eu preciso trabalhar para ter alguma renda. É difícil, mas se não for assim nunca vai acontecer. Essa mensagem que tento levar para as pessoas.
Você compartilha nas redes sociais sua rotina de estudos, conquistas e aprendizados, e já reúne mais de 80 mil seguidores. Como tem sido essa troca com os seguidores? Você recebe muitas mensagens de incentivo e reconhecimento?
É cansativo. A verdade é que não fui muito de rede social. Acho que Deus dar aquilo que você está querendo. Mas tem que bater o pé. Eu odiava ficar aparecendo, mostrando minha vida. Mas, hoje em dia, eu vejo como um trabalho. Vejo como algo que pode ajudar muitas pessoas. Quando vou às escolas dar uma palestra, fazer um bate-papo, quase tudo é de graça. Então, criar conteúdo é muito trabalhoso. Mas tenho que ter uma rede social ativa, porque no Instagram tudo é número. Produzir conteúdo todo dia para o Instagram, dar conta da faculdade e do trabalho no colégio, é coisa de doido. Meu Instagram já tem 90 mil pessoas. E se continuar assim logo, logo bate 100 mil. É isso: a cada dia que passa vou trabalhando e postando.
Você também já escreveu um e-book com dicas para a redação do Enem e dá aulas particulares. Quais são as principais orientações que você daria para quem sonha em ter um bom desempenho e conquistar uma vaga em um curso concorrido como Medicina?
Para passar em Medicina, como para qualquer coisa na vida, você tem que ter organização e disciplina. Você pode até não ser muito inteligente, um gênio, mas tem que ser trabalhador. O primeiro passo é conhecer suas limitações. Se sou ruim em matemática ou em física, ou qualquer outra disciplina, tenho que trabalhar muito para superar essa dificuldade. Para isso, é preciso ter muito planejamento. E saber o que você quer fazer: um determinado curso, uma profissão, trabalhar em alguma empresa. É preciso ter essa noção porque todo ser humano é movido por propósito. Normalmente, seja um concurso ou um vestibular para Medicina, é normal você ser reprovado nas primeiras tentativas. E muita gente acaba desistindo. Por isso precisa ter um propósito: ah, eu quero ser médico para mudar a realidade de minha família. Eu quero ter uma empresa para poder fazer alguma coisa… Tudo gira em torno do propósito. É isso: você precisa ser organizado, planejar e parar de reclamar. Eu acredito que o mundo é difícil para todos. E para quem é pobre é pior ainda. Mas se você tem um celular, tem internet, já tem muita coisa. O problema é que a gente fica procurando o mundo perfeito para fazer as coisas. Mas, com o pouco que você tem, já consegue fazer. E também precisa ter uma rotina: estudar poucas horas, mas todos os dias. Quem passa em Medicina ou em outro curso concorrido de uma federal ele não estuda muitas horas por dia. Ainda mais se for pobre. Mas se estudar algumas horas por dia, mas todos os dias, já está no caminho. Então, é ser constante nos estudos, saber de suas limitações e trabalhar. Eu falo direto que a educação modifica vidas. Está modificando a minha história e pode modificar a de milhares de pessoas. Mas precisa de trabalho, estudar todos os dias.
Você fez uma redação quase perfeita no Enem. Este ano a prova já passou, mas que dicas você daria para quem quer se sair bem nessa etapa?
Eu posso falar em relação à leitura. Tem que ler, gente. Não adianta querer fazer uma boa redação se você não lê. Porque a redação é a síntese daquilo que você é como pessoa. De que forma você enxerga a vida. A leitura é de suma importância. Redação e questões de matemática você tem que fazer pelo menos uma vez por semana. Porque é preciso ter muita prática. Então, tenha uma noção básica de como é a estrutura da redação. Estudar eixos temáticos é sempre melhor. O tema da redação da prova do Enem deste ano foi “Perspectivas do envelhecimento na sociedade brasileira”. Então, se você sabe sobre temas sociais, você tem como argumentar. É preciso estudar esses eixos e treinar. Não tem outro meio.
Passar em Medicina já foi um grande desafio, mas a gente sabe que se manter e ter um bom desempenho Na faculdade é uma etapa tão difícil quanto. Como tem sido sua experiência?
O curso de Medicina tem muitas disciplinas e é para quem gosta de estudar. Não foi tão fácil me adaptar porque eu tinha uma defasagem por ter estudado em colégio público. Por isso, precisei estudar mais para levar o curso. Na escola a média era cinco. Na faculdade a média é sete. E é prova o tempo todo. O nível de exigência é muito alto. Por isso, é preciso estudar muito. Porque, em Medicina, o mal médico, ele mata. Tem que ter essa responsabilidade o tempo todo. Medicina também é um curso em tempo integral, então a gente tem pouca disponibilidade para trabalhar em outra coisa. Hoje, estou no sétimo período. Mas é exaustivo. É uma rotina realmente cansativa.
Para concluir, Matheus, quais são seus planos para o futuro? Que tipo de médico você sonha em se tornar?
Eu me formo em meados de 2028 e pretendo retornar a minha comunidade quilombola, trabalhar um tempo lá. Eu penso em fazer em uma dessas três áreas – saúde da família, oncologia ou otorrino. Se conseguir emprego lá em Antônio Cardoso, penso em voltar e trabalhar um tempo lá. Estudar para fazer a prova de residência. E penso também em tocar algum projeto social para estimular a educação, alguma coisa que venha poder agregar na vida das pessoas. É assim que penso a vida pós-formatura.