O banquete cancelado do PT, a nova chateação de Rui Costa e o gargalo da BR-324

A mudança de agenda do presidente Lula (PT) durante o 2 de Julho na Bahia teve um efeito colateral para lá de indigesto. Segundo uma fonte influente com trânsito no Palácio de Ondina, o senador Jaques Wagner (PT) já havia contratado um buffet para receber Lula em sua residência na noite anterior ao cortejo. O banquete, contudo, teve que ser cancelado por orientação de auxiliares próximos do presidente, que também desistiu de participar do cortejo. A mudança de planos ocorreu em meio às investigações da Polícia Federal contra Wagner pela operação Compliance Zero. Bom, dessa vez, o banquete acabou antes de começar. E não foi por falta de apetite.

Respira, Rui
Sempre que vem à cena atacar adversários usando questões relativas à saúde pública, o ex-ministro Rui Costa (PT) é lembrado de que ainda precisa explicar aos baianos onde estão os R$ 48 milhões pagos antecipadamente por 300 respiradores que nunca foram entregues, enquanto pacientes aguardavam atendimento durante a pandemia de Covid. Rui também é instado a dar explicações às famílias que perdem seus entes na fila da regulação sob o olhar passivo do Governo do Estado. No governo Jerônimo, a propósito, o tempo médio de espera por atendimento de alta complexidade aumentou em 213%. Foi como disse o deputado Robinho esta semana, Rui não tem autoridade moral para posar de referência em saúde.
Prejuízo dividido
O ex-ministro Rui Costa não gostou nada da decisão de dividir o mesmo marqueteiro com o senador Jaques Wagner. Apesar da tentativa de vender a escolha como consensual, o clima nos bastidores foi de forte desconforto. Segundo interlocutores, Rui avalia que a estratégia pode arrastar sua imagem para o desgaste enfrentado por Wagner na operação Compliance Zero, após o senador ter sido alvo de mandado de busca e apreensão da Polícia Federal. A apreensão de relógios de luxo, dólares e euros durante a operação só reforçou o temor. O que era para unificar a campanha pode acabar dividindo o prejuízo.
Números sem fronteiras
Um influente dirigente do PT do Ceará teve acesso a números de pesquisas internas recentes feitas pelo próprio partido na Bahia e, segundo interlocutores, ficou impressionado com a vantagem de ACM Neto sobre o governador Jerônimo Rodrigues (PT), sobretudo pelo potencial de crescimento atribuído ao ex-prefeito de Salvador. Impressionou ao cacique petista do Ceará que o cenário apontado nos levantamentos é bem diferente daquele pintado por lideranças do partido na Bahia.
Clima pesado
Voltando ao 2 de Julho, as vaias e manifestações contra Jerônimo e Wagner não repercutiram apenas nas redes sociais. Segundo uma fonte da coluna, o assunto provocou uma intensa troca de mensagens no grupo de WhatsApp, em que auxiliares e articuladores políticos passaram boa parte do dia discutindo os episódios e seus desdobramentos, com xingamentos. O clima não foi nada amistoso. Curiosamente, as vaias direcionadas a Rui passaram quase despercebidas nas conversas, pois a turma do grupo não é muito simpática ao ex-ministro. Para alguns, as manifestações contra Rui foram até merecidas.
A fatura chegou
O clima também azedou para o lado do vice-governador Geraldo Júnior (MDB). Segundo uma fonte da coluna, o emedebista foi alvo de uma dura cobrança do senador Jaques Wagner depois da reunião do conselho político do grupo nesta semana. Na avaliação de Wagner, a organização política da festa em Salvador era responsabilidade de Geraldo. A reprimenda, segundo relatos, foi dura: “Para fazer política é preciso ter crédito”. E emendou que o pouco crédito político acumulado pelo vice-governador teria se esgotado depois dos episódios registrados durante o cortejo.
EmPACado
A cratera que praticamente paralisou a BR-324 nesta semana expôs um velho discurso que não resistiu ao teste da realidade. Durante a campanha, Jerônimo Rodrigues sustentou que a Bahia precisava de um presidente aliado para destravar obras e resolver gargalos históricos. Quatro anos depois, a principal rodovia do estado virou símbolo do oposto. Com Rui Costa na Casa Civil, comandando o PAC, e Jaques Wagner na liderança do governo no Senado, a parceria prometida ficou no papel. Em Brasília, o PAC pode até ter andado, mas na Bahia, empacou.
Na base da pressa
A corrida do governo para assinar convênios e contratos antes do freio imposto pela legislação eleitoral tem produzido cenas, no mínimo, curiosas. Em alguns casos, o vencedor da licitação foi anunciado e o contrato acabou assinado praticamente em seguida, sem que fosse aguardado o prazo recursal previsto no próprio edital. A pressa pode até ter ajudado a produzir manchetes e fotos de assinatura, mas por outro lado abriu um espaço enorme para questionamentos jurídicos, o que pode retardar ou travar de vez a execução da obra anunciada.
Desproporcional
Se a sensação de insegurança é geral na Bahia, há pelo menos um endereço onde ela definitivamente não chegou. O gabinete do vice-governador Geraldo Jr. reúne 42 policiais militares da ativa dedicados à sua estrutura, num estado que acumula déficit de quase 13 mil PMs. Na prática, o vice dispõe de uma proteção 18 mil vezes superior à média do cidadão comum, já que a média hoje na Bahia é de um policial para cada 440 baianos.
A ponte inexistente
O cenário montado pelo governador Jerônimo Rodrigues para dizer que a obra da ponte Salvador-Itaparica está avançando levou o assunto a virar piada na imprensa nacional. O ato, que teve a presença de Lula, acabou sendo repercutido nacionalmente, mas não da forma que o PT baiano esperava. Veículos de comunicação destacaram que Lula inaugurou “canteiro de obra” e que “a ponte não leva a lugar nenhum”.
Debandada
O prefeito de Camaçari, Luiz Caetano (PT), começa a enfrentar turbulências dentro da própria base. Segundo fontes da coluna, lideranças locais têm deixado o grupo político do petista, em um movimento que acendeu o sinal de alerta às vésperas da montagem dos palanques de 2026. Entre as baixas está a do ex-vereador Cleber Alves, cuja esposa, Márcia Guimarães, que ocupavam um cargo na gestão de Caetano e deixou o posto para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, em dobradinha com Matheus Ferreira, filho do vice-governador Geraldo Júnior. A avaliação é que a sequência de desembarques enfraquece a deputada federal Ivoneide Caetano e expõe dificuldades do prefeito na condução da articulação política com aliados históricos.











