Nove mortos: ‘A gente sabe da porta para dentro’, diz parente de morto tido como liderança do BDM
Sepultamento de Marcos Vinícius foi acertado por familiar no IML; polícia diz que grupo se preparava para atacar facção rival

Após nove mortes em confronto, polícia reforça efetivo em Cajazeiras Crédito: Arisson Marinho/CORREIO
Acompanhada de duas crianças, uma mulher acertava por telefone, na manhã desta quarta-feira (16), o sepultamento de Marcos Vinícius dos Santos Barbosa, um dos nove mortos em uma ação da Polícia Militar em Cajazeiras V. Apontado como uma das lideranças do Bonde do Maluco (BDM), o jovem era parente dela, que estava no Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues (IMLNR) para a liberação do corpo.
Questionada se Marcos Vinícius realmente comandava o BDM, que, segundo a polícia, se preparava para atacar integrantes do Comando Vermelho (CV) na terça-feira (15), ela respondeu: “Eu não sei dizer se era. A gente sabe da porta para dentro. Da porta pra fora, só ele e Deus”. O grupo foi surpreendido por policiais do Batalhão de Patrulhamento Tático Móvel (BPatamo).
A mulher disse que não conhecia a rotina do rapaz, mas não negou o envolvimento dele com a organização criminosa. “Ele era do BDM. Deixou a cadeia há quatro meses e vivia como andarilho. Não tinha morada fixa. Quem vive nessa vida, do crime, não fica em um lugar só”, declarou.
Além de Marcos Vinícius, morreram Aldemir Junior Teixeira do Amaral; André Luís Santos de Jesus; Eduardo Santos de Alcantara; Ronald Batista Reis da Silva; Wesley da Silva Pimentel; Adalberto de Jesus Neto; Iuri dos Santos Dias e William Couto Neves, apontado como responsável pelo transporte de armas e munições para uma facção criminosa.
Nove homens foram mortos em Cajazeiras
“Entre os mortos, com certeza havia lideranças, isso é fato. Quem porta fuzil normalmente são aqueles que dão as ordens, porque o armamento é objeto de cobiça e quem porta não é qualquer um. Ontem (terça), havia mais de 20 homens armados com fuzis e conseguimos apreender quatro”, relatou o comandante do BPatamo, tenente-coronel Jorge Ramos.
Policiamento
No dia seguinte às mortes, unidades da Polícia Militar reforçaram o policiamento em Cajazeiras. A circulação de viaturas e blitzes em alguns pontos garantiram o funcionamento de ônibus e do comércio. O medo, no entanto, ainda pairava entre moradores e trabalhadores.
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“Seguro ninguém está, né?”, disse uma funcionária de uma farmácia na rotatória de Cajazeira V. “Ontem foi um pipoco, uma loucura. Todo mundo correndo. Hoje, as escolas estão funcionando, mas muitas irão até o meio-dia”, contou uma dona de casa, por volta das 9h30 desta quarta-feira.
Ainda em Cajazeira V, policiais militares estiveram na Quadra 7, acesso à área de mata onde ocorreu o confronto, nos fundos do Hospital Couto Maia. Os militares garantiram a segurança dos peritos do Departamento de Polícia Técnica (DPT), que realizaram a perícia no local do tiroteio. Um helicóptero do Grupamento Aéreo da PM (Graer) também sobrevoou o matagal, reforçando o patrulhamento.
No entorno, policiais retiraram de postes de iluminação câmeras usadas pelo tráfico para monitorar os moradores e, principalmente, a chegada de viaturas.
‘Messi’
Segundo a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), as armas apreendidas depois do confronto foram fornecidas por Pablo Carvalho dos Santos, conhecido como “Messi”. Ele é apontado como chefe do BDM com atuação no bairro de Brotas e ocupa a posição de número 2, de Copas, no Baralho do Crime.
A polícia relata que havia recebido a informação de que faccionados fariam um ataque contra integrantes de outro grupo criminoso na região. Diante da denúncia, foi preparado um reforço no policiamento e equipes fizeram incursões na área de mata que liga o bairro a Cajazeiras XI.
De acordo com a versão apresentada pela Polícia Militar, os agentes encontraram homens armados, que dispararam contra as equipes e fugiram pela mata. Houve confronto. Além dos nove mortos, um homem foi preso.
Na ação, foram apreendidos quatro fuzis de calibres 5,56 e 7,62, além de uma carabina, uma espingarda, pistolas, carregadores, colete balístico, munições e drogas. “Inclusive, um fuzil cáqui, que era ostentado nas redes sociais, está entre as armas apreendidas”, disse o tenente-coronel Jorge Ramos.
Chacina?
O secretário da Segurança Pública, Marcelo Werner, comentou a operação em Cajazeiras V. Segundo ele, a ação, que resultou nas nove mortes, foi “pontual”. “Após a localização de um acampamento, criminosos atacaram as forças de segurança e, após o revide, foi localizado um arsenal de armamentos que ia ser utilizado para não só confrontar outras facções, como para impor violência e medo à população de um bairro de Salvador que vinha enfrentando essa situação”, afirmou.
Já o sociólogo e pesquisador do Laboratório de Estudos em Crime e Sociedade (LASSOS-UFBA), Luiz Claudio Lourenço, afirmou que ações como essa acendem um alerta para a segurança da população soteropolitana.
“A frequência dessas ocorrências preocupa e a elucidação delas é importante para a população, mas também para a polícia, que precisa ser respaldada de legitimidade. O uso da força não pode ser banalizado”, avaliou.
Para Lourenço, o episódio desta terça-feira pode ser enquadrado como uma “chacina”. O termo é utilizado para designar um evento com múltiplas mortes decorrentes de uma situação de violência. “Se nos ativermos a este critério, é possível chamar o que houve de chacina”, apontou.












